Trek Full Stache - excêntrica e versátil

POR: Tiago Rio
FOTOS: Carlos Batista | RIDER: Tiago Rio

Nos últimos anos a Trek tem sido uma das marcas mais dedicadas ao desenvolvimento de novas soluções no mundo do BTT, foram eles por exemplo os pioneiros do padrão Boost. Não é por isso de admirar que mais uma vez surpreendam tudo e todos ao apostar num conceito diferente. A ideia por trás da Full Stache é combinar a capacidade de rolamento de uma roda 29", com a tração superior de um pneu mais largo, criando uma bicicleta divertida por ser diferente e permitir explorar o trilho de outras formas.

Um quadro repensado

Pôr o conceito em prática, não foi apenas uma questão de alargar as escoras para permitir a montagem de pneus de maior dimensão. Embora baseado na plataforma Fuel Ex, o quadro da Full Stache foi redesenhado em alguns pontos. As escoras ultra-curtas com apenas 427mm implicaram o posicionamento do pivot principal do quadro à frente do eixo pedaleiro. O tubo da direção é bastante pequeno, o que ajuda a manter a altura do guiador baixa, para não prejudicar a agilidade nem o conforto. É possível fazer ajustes à geometria através do sistema Mino Link, e outras tecnologias habituais nos quadros da Trek como 'Knock Block' ou 'Active Braking Pivot' também estão presentes.

Um dos pormenores curiosos no design é a escora traseira assimétrica, que do lado direito assume uma forma semelhante a um boomerang. Serve o propósito de acomodar um pneu mais largo, mas também elimina por completo o ruído da corrente a bater na escora, sendo a bicicleta mais silenciosa que já testámos. A bicicleta tem claramente falta de rigidez traseira, especialmente na roda. As rodas sofrem de muita torção e a sprintar de pé o pneu roça na corrente mesmo a meia cassete.Também notámos alguma tendência para os pivots do quadro ganharem folga, pois tivemos de os apertar e colar mais de uma vez.

A Full Stache encontra-se apenas disponível em quadro de alumínio, e numa única montagem - a Full Stache 8. Existe todavia a opção de adquirir apenas o quadro para efectuar uma montagem personalizada. É compreensível que não exista ainda nenhuma opção em carbono, pois os moldes necessários para a produção de quadros de carbono são dispendiosos e necessitam de um alto volume de vendas para justificar o investimento, e neste momento a Trek estará a medir o pulso ao mercado para avaliar o potencial sucesso deste tipo de bicicletas.

Aceleração vertiginosa

Como provavelmente já imaginaste, a aceleração em descida e capacidade de manter a velocidade são pontos fortes nesta bicicleta. O enorme diâmetro exterior dos pneus rola com facilidade por cima de tudo e à mínima insinuação de um declive negativo a velocidade aumenta rapidamente. Num ápice chegamos à próxima curva, e aí sentimos a falta de mais potência na travagem. Embora os SRAM Guide R sejam uns travões indicados para uma qualquer bicicleta de Trail, ficam claramente aquém do que seria necessário para travar este monstro. Seria melhor equipar uns travões de Downhill, como os SRAM Code, com capacidade de travagem superior para segurar os ímpetos da Full Stache.

Tração fora de série

Os pneus são da marca da casa - a Bontrager, e são uma versão de 3" dos já famosos e polivalentes XR4 habitualmente vistos nas Remedy, Slash, Fuel EX e Powerfly. Têm um rodado que permite curvar muito bem, sem comprometer demasiado a capacidade a rolar. E é neste ponto que a Full Stache se torna excelente, com uma tração sem limites, que não se intimida minimamente com zonas off-camber. A subir em trilhos mais técnicos conseguimos manter a roda colada ao piso, nas zonas onde outras bicicletas já não encontram aderência.

Um comboio nos trilhos

O grande volume de ar destes pneus é a outra grande mais-valia, amortecendo significativamente os impactos e transmitindo a sensação de estarmos aos comandos de uma bicicleta com bastante mais curso que os 130mm da Full Stache, praticamente ao nível de uma bicicleta de enduro. Seja a atravessar trialeiras, zonas rochosas, ou a aterrar drops, parece que voamos por cima de almofadas.

Se metade deste mérito é dos pneus, o restante pertence ao amortecedor Fox, que junto com o sistema RE:activ da Trek, proporciona um amortecimento satisfatório, e com uma plataforma de pedalada eficiente que não compromete nada as subidas. Apesar da impressionante dimensão dos pneus e do peso elevado, a Full Stache não é uma bicicleta lenta a subir, e rola também com bastante facilidade.

Em trilhos mais abertos e sem curvas fechadas é genial! Mesmo nas zonas mais técnicas a sua imensa estabilidade enche-nos de confiança para apontar a bicicleta lá para baixo e deixá-la resolver o resto sozinha, como se fosse uma locomotiva sobre carris.

Onde a Full Stache se torna aborrecida é nos trilhos mais naturais e sinuosos. Apesar da geometria bem pensada, o inevitável comprimento torna-a difícil de manobrar nas curvas mais fechadas, onde se perde o flow. A condução agressiva também traz a sua factura, pois o peso elevado da bicicleta obriga a um esforço maior ao manobrá-la, que se nota ao fim de alguns quilómetros com o cansaço a surgir mais cedo do que o habitual.

O sonho dos bikepackers radicais?

Sendo uma bicicleta de nicho, não é de esperar que agrade a todos! É excêntrica e versátil, e se em algumas situações se destaca muito pela positiva (tração e capacidade a descer), outras há em que se destaca pela negativa (agilidade em singletrack).

Foi uma bicicleta que nos deu muito gozo testar, e é uma opção entusiasmante para quem procura segurança, conforto e tração em trilhos variados. Recomenda-se para quem deseja fazer bikepacking com maior conforto, mas sem perder a capacidade de sair do estradão e se ir divertindo por trilhos mais técnicos.

FICHA TÉCNICA

Prós: Aceleração, tracção e conforto.

Contras: Pouco ágil em singletrack. Travagem insuficiente.

Preço: 3.499€

Site do fabricante